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Professora orientadora no Inteli: como Laíza Ribeiro Silva fez da orientação de alunos sua profissão

Conheça Laíza Ribeiro Silva, professora orientadora do Inteli, e suas pesquisas em tecnologia educacional, do autismo à IA que apoia professores.

Quando era criança, Laíza Ribeiro Silva ganhou várias bonecas de Natal e mal olhou para elas. O que ela queria mesmo era uma lousa verde. “Minha felicidade era ter um apagador e giz colorido para poder dar aulinha para as minhas primas”, lembra.

Hoje, Laíza é professora orientadora do primeiro ano no Inteli, onde foi a primeira professora contratada. No caminho até aqui, carregou uma pergunta que demorou a responder: afinal, no que ela é especialista?

De consertar computadores a pesquisar educação

Laíza cresceu em uma cidade de 9 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Na adolescência, consertava o próprio computador, o dos vizinhos e o da família. Foi nesse contexto que ela e os pais começaram a considerar a computação como um caminho profissional.  A faculdade federal mais próxima ficava em São João del-Rei, que ainda não oferecia o curso. Enquanto esperava, ela fez um curso de técnico em informática. Quando a graduação em Ciência da Computação abriu, entrou. Logo percebeu que programar não era o que a movia.

O que a movia apareceu em um estágio no núcleo de educação a distância da faculdade. Durante dois anos, ela gerenciou o Moodle, a plataforma de aulas on-line da instituição, e passou os dias resolvendo problemas de professores e alunos.

No trabalho de conclusão de curso, ensinou programação de forma lúdica a estudantes do ensino médio, usando o App Inventor, uma ferramenta do MIT. O projeto rendeu dois artigos e um capítulo de livro. Foi aí que ela se apaixonou pela pesquisa. Fez o mestrado e está finalizando seu doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, na área de computação aplicada à educação.

No Inteli desde a primeira reunião

O Inteli chegou pela pesquisa. Em março de 2020, o orientador de mestrado de Laíza participava do projeto como consultor educacional e a convidou para reuniões em São Paulo.

Ela ajudou a pensar a grade curricular e depois passou para o apoio acadêmico. Acompanhou a autorização dos cursos no MEC em plena pandemia, com prazo apertado: sem a autorização a tempo, não haveria processo seletivo. Foi contratada antes de defender o mestrado.

Laíza chegou querendo trabalhar no time administrativo. Quem insistiu que ela entrasse como professora foi Flávia Santoro, diretora acadêmica do Inteli, que Laíza conheceu naquela primeira reunião. Laíza tinha medo de não saber responder a uma dúvida mais específica de um aluno. Com o tempo, entendeu que a função pedia outra coisa.

“O papel de professora orientadora é muito a minha cara, porque é tudo o que eu gosto de fazer”, conta. É acolher, conversar com os alunos e ajudá-los a resolver seus problemas, ao mesmo tempo em que os prepara para conquistar autonomia. É ensiná-los a planejar, executar e entregar resultados. É ter esse olhar para o todo. 

Ela dá aula no Inteli desde 2022, quando a instituição começou a operar. Para ela, o clima de construção nunca acabou. O que funciona continua, e o que não funciona é revisto. Por isso, diz, a orientadora de 2022 e a de hoje são bem diferentes.

O que faz uma professora orientadora?

O Inteli usa a aprendizagem baseada em projetos, conhecida pela sigla PBL. Em vez de estudar a teoria primeiro e aplicá-la depois, os alunos aprendem enquanto desenvolvem projetos reais para parceiros. O trabalho é organizado em ciclos curtos, chamados sprints. A cada semestre, a professora orientadora acompanha uma turma nesse percurso.

O trabalho dela é apontar direções. “Eu tenho que conseguir direcionar o aluno para ele achar a resposta do que ele precisa, e não dar a resposta para ele”, explica.

Isso inclui ensinar a lidar com o erro. Recentemente, um aluno que liderava a sprint admitiu que não tinha feito o acompanhamento que ela havia sugerido. Laíza respondeu que ele não tinha errado, estava começando. Na próxima vez, ele poderia testar o caminho sugerido, que também poderia não funcionar.

Ela repete aos alunos que eles não precisam entregar algo perfeito. Se a entrega funciona e eles sabem replicá-la sozinhos, o objetivo foi cumprido. A mesma lógica vale para a inteligência artificial. Laíza incentiva quem usa a IA para se guiar e avisa que quem a usa apenas para passar de módulo vai sentir falta do aprendizado mais adiante.

Ela também aplica o feedback a si mesma. Quando uma avaliação individual saiu difícil demais, pediu retorno à turma e ajustou a seguinte. Os alunos demonstram gostar do estilo de Laíza na condução do processo de ensino e aprendizagem, não porque as coisas sejam fáceis, mas porque percebem que são justas e coerentes.

Uma relação que vai além da sala de aula

No Inteli, a proximidade com os alunos faz parte do jeito de ensinar. Laíza sabe que os estudantes costumam colocá-la em um pedestal: graduação, mestrado, doutorado, temporada fora do país. “Eles criam uma Laíza que não existe”, conta.

Por isso, ela faz questão de mostrar que também erra e que já foi aluna de graduação, como eles. Ao descer desse pedestal, mostra que o lugar onde ela está também pode ser alcançado por eles.

Às vezes, essa proximidade sai da sala. Em um inverno, ela reparou que um aluno vinha sempre de chinelo. Soube por um colega dele que o rapaz não tinha dinheiro para comprar um tênis. Laíza o levou ao shopping e comprou tênis e roupas de frio. Depois, passou a ajudá-lo todo mês até ele conseguir um estágio. Na formatura, ele contou que tinha doado aquele tênis a um amigo, porque já não precisava mais dele.

O cuidado também voltou para ela. Há dois anos, Laíza se afastou por causa de um AVC. No dia em que retornou, a turma inteira saiu da sala assim que ela entrou. Os alunos voltaram com girassóis e uma cesta de boas-vindas.

Pesquisa em tecnologia educacional: do autismo à inteligência aumentada

A vocação para guiar o aprendizado atravessa também a pesquisa de Laíza, toda dedicada à computação aplicada à educação.

Gamificação para crianças com autismo

No mestrado, ela partiu do ensino por tentativas discretas, uma abordagem da psicologia já validada na literatura. A criança recebe algumas opções e uma pergunta. Quando acerta, ganha um reforço positivo, que pode ser um elogio ou algo concreto. Quando erra, não há punição: vem outra pergunta, e depois a que ela errou volta.

Laíza transformou esse reforço em elementos de jogo. A cada fase, a criança ganhava um elemento de jogo, como uma estrela, por exemplo, e ouvia um “parabéns, você acertou”, com áudios gravados pela própria pesquisadora. A ideia era que as famílias pudessem usar a tecnologia em casa, aproveitando a facilidade que muitas crianças com autismo têm com esse tipo de recurso.

A aplicação foi desenhada em Lisboa, em seis meses de codesign com especialistas em autismo, que posicionavam os elementos de jogo em protótipos de papel. Os testes foram feitos com quatro crianças na APAE de São Carlos. Uma delas pediu para continuar jogando em casa. Outra não queria ir embora.

O trabalho gerou uma patente depositada e quatro registros de software. Também foi reconhecido pela FAPESP e pela CAPES.

Feedback com IA, com o professor no controle

No doutorado, em fase final, Laíza investiga o feedback em matemática no ensino fundamental. O ponto de partida foi uma lacuna: não existe um modelo que ensine professores a dar feedback.

Em uma revisão sistemática, ela encontrou 27 estudos sobre sistemas tutores inteligentes, que usam IA para personalizar o aprendizado. Em apenas 10 deles o professor participava da criação do feedback, e mesmo assim de forma parcial.

Laíza entrevistou 11 professores e pediu que escrevessem feedbacks para resoluções reais de exercícios. Um padrão chamou atenção: quando o aluno acerta, a resposta costuma parar no “parabéns”. Dessas entrevistas saiu um framework que começa reconhecendo o que o aluno fez certo. Depois, ele desafia quem acertou a ir além e orienta quem errou sem entregar a resposta, já que há mais de um caminho para chegar lá.

O framework virou um módulo para sistemas tutores inteligentes. O professor envia a foto da resolução, informa a resposta correta e recebe um feedback gerado por IA, que pode aprovar ou editar. Ele também informa como o aluno aprendeu o conteúdo e como tem estado emocionalmente. “Quando a gente fala de inteligência aumentada, a gente une inteligência artificial com inteligência humana”, diz Laíza. “Nunca deixar a artificial ficar acima do humano.”

A proposta é que o módulo funcione também em escolas sem infraestrutura, em regiões remotas ou mais pobres. Ali, o professor funciona como ponte. Ele fotografa as atividades, recebe o feedback e o entrega ao aluno por escrito ou falado, no caso das crianças menores.

Afinal, no que Laíza é especialista?

Durante anos, Laíza se incomodou por não conseguir se definir em uma frase. Chegou a fazer mentoria de carreira para descobrir no que era boa. No fim desta entrevista, a resposta apareceu quase de brincadeira: especialista em orientar. Ela agradeceu e entrou no jogo: “Já saio dessa reunião sabendo o nome daquilo em que sou especialista.”

A brincadeira tem fundo. Da lousa verde às turmas do primeiro ano, passando pelos jogos para crianças com autismo e pela IA que responde ao professor, Laíza sempre esteve no mesmo lugar: o de quem ajuda o outro a encontrar o caminho sem percorrê-lo por ele. E ela sente que está no lugar certo para seguir fazendo isso por muitos anos.

Quer entender como é aprender com projetos reais e com orientadores por perto? Conheça a graduação do Inteli e leia outras histórias da série Inteli em Primeira Pessoa.


Laíza Ribeiro Silva é professora orientadora do primeiro ano no Inteli, onde foi a primeira professora contratada. É mestra e doutoranda pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP), com pesquisa sobre feedback educacional e inteligência aumentada. Também fez estágio na Universidade de Lisboa, onde desenvolveu pesquisa sobre gamificação e autismo.

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