No Brasil, as tecnologias assistivas que apoiam o aprendizado de pessoas surdas existem, mas chegam a poucos. O custo elevado coloca essas ferramentas fora do alcance de grande parte das escolas e famílias que mais precisariam delas. Esse cenário incomoda. E foi exatamente esse incômodo que moveu um grupo de estudantes do Inteli a fazer algo a respeito.
Em 2024, sob orientação da professora Bruna Mayer, mestra e doutoranda em artes visuais pela USP e docente de UX e Design no Inteli, cinco alunos do primeiro ano decidiram que não queriam apenas estudar o problema. Queriam resolver.
Foi assim que nasceu o Sintoniza.

Uma solução técnica para um problema urgente.
A escolha pela música como foco do projeto não foi aleatória. A disciplina tornou-se obrigatória na Educação Básica em 2008, foi consolidada como linguagem dentro do componente Arte em 2016 e integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Fundamental desde 2017. Com esse respaldo legal e pedagógico, surgiu o incômodo central dos alunos:
Se música é obrigatória e essencial para o desenvolvimento, por que os estudantes surdos ainda encontram tão poucos recursos adequados para participar plenamente dessas aulas?
A equipe formada por Nataly de Souza Cunha (Engenharia de Software), Pablo de Azevedo (Engenharia de Computação), Cecília Beatriz Melo Galvão (Engenharia de Computação), Lucas Periquito Costa (Engenharia de Computação) e Mariana de Paula Barbosa Souza (Sistemas de Informação) desenvolveu um dispositivo que traduz conteúdo musical em vibrações táteis.
Na prática, o professor carrega a partitura da música em um software desenvolvido pela própria equipe. O software processa o conteúdo e o envia ao dispositivo, conectado ao notebook, que realiza vibrações de diferentes intensidades e durações. O resultado é uma experiência musical que pode ser sentida pelas mãos e pelo corpo, permitindo que alunos surdos participem das aulas de música.

Para chegar a essa solução, a equipe se inspirou nos envelopes dinâmicos do som: curvas que descrevem como um som evolui ao longo do tempo e que diferenciam timbres, como os de um piano e de uma guitarra. A partir daí, desenvolveram seus próprios “envelopes de vibração”, padrões capazes de representar características musicais de forma tátil. Cada decisão técnica teve como critério central o custo: a solução precisava ser acessível financeiramente para que chegasse às escolas públicas e às famílias que mais precisam dela.
O quase como combustível.
Com o projeto em desenvolvimento, o grupo inscreveu o Sintoniza no Desafio Liga Jovem, competição nacional promovida pelo Sebrae para estudantes e professores com iniciativas de inovação e impacto social.
Na primeira tentativa, ainda no primeiro ano da faculdade, chegaram à final nacional. Não ganharam nenhum prêmio.
Poderiam ter parado por aí. Em vez disso, usaram a experiência como diagnóstico: o que precisava melhorar? O que ainda não estava maduro o suficiente? A equipe transformou o projeto em uma iniciação científica, que foi financiada pelo Inteli e, por um ano inteiro, se dedicou a aprofundar a pesquisa.
Na segunda tentativa, com mais de 60 mil inscrições de todo o Brasil, o Sintoniza conquistou o primeiro lugar na final nacional, realizada em Belém, no Pará, em 2025.

Pablo de Azevedo, um dos integrantes da equipe, resumiu bem o que esse percurso representou:
“No ano passado, a gente tentou o Liga Jovem e nem sequer pódio a gente pegou com o exato mesmo projeto. Mas a gente tinha confiança em transformar a vida de pessoas surdas por meio da música, transformar a vida de pessoas neurodivergentes, e continuamos um ano inteiro insistindo nesse projeto.”
A premiação foi destaque no especial do Movimento LED – Luz na Educação, iniciativa da Globo voltada à valorização de projetos transformadores na educação brasileira.
Barcelona
Como parte do prêmio, a equipe participou da Missão Internacional em Barcelona. Os alunos estiveram no Mobile World Congress (MWC 2026), o maior evento global de conectividade e tecnologia, onde apresentaram pitches do projeto e acompanharam demonstrações das principais empresas do setor.
Também participaram do 4YFN, evento dedicado ao ecossistema de startups com tema “Infinite AI”, e visitaram referências do ecossistema de inovação da cidade, como La Salle Technova, Norrsken, o Distrito 22@, Tech Barcelona – Pier 01 e o Consulado-Geral do Brasil.
O que o Sintoniza revela?
Identificar um problema real. Desenvolver uma solução tecnicamente sofisticada. Receber uma recusa e voltar melhor. Chegar à final nacional e representar o Brasil em Barcelona.
Tudo isso, ainda no segundo ano da graduação.
O Sintoniza é um projeto de acessibilidade. Mas é também o retrato de como formamos no Inteli: com professores que orientam de verdade, alunos que não se acomodam diante de problemas difíceis e um método que transforma inconformismo em tecnologia com impacto real.
Acompanhe o projeto: @sintoniza_br